Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços (Porto Alegre: L&PM, 2008)


"Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais." (p. 23)

"A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia." (p. 78)

"Em nossas terras, os numerinhos têm melhor sorte do que as pessoas. Quantos vão bem quando a economia vai bem? Quantos se desenvolvem com o desenvolvimento?

Em Cuba, a Revolução triunfou no ano mais próspero de toda a história econômica da ilha." (p. 79)

"O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços." (p. 81)

"os amantes se comem entre si de ponta a ponta, todos todinhos, todo-poderosos, todo-possuídos, sem que fique sobrando a ponta de uma orelha ou um dedo do pé." (p. 97)

"No poder, existe divisão de trabalho: o exército, os grupos armados e os assassinos profissionais cuidam das contradições sociais e da luta de classes. Os civis cuidam dos discursos." (p. 103)

"A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o espetáculo, que não é negado a ninguém. E ninguém se incomoda muito, afinal, que a política seja democrática, desde que a economia não o seja." (p. 108)

"O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência." (p. 110)

"O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador." (p. 116)

"O sistema esvazia nossa memória, ou enche a nossa memória de lixo, e assim nos ensina a repetir a história em vez de fazê-la." (p. 121)

"Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar." (p. 149)

"Debaixo da aparente estupidez, existe a estupidez verdadeira." (p. 155)

"Leio um artigo de um escritor de teatro, Arkadi Rajkin, publicado numa revista de Moscou. O poder burocrático, diz o autor, faz com que os atos, as palavras e os pensamentos jamais se encontrem: os atos ficam no local de trabalho, as palavras nas reuniões e os pensamentos no travesseiro." (p. 177)

"porque somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por menos que saiba." (p. 266)

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